'' Em vez de desperdiçares as tuas poucas palavras a tentar derrubar o meu ser, conhece primeiro um pouco da minha vida, antes de me julgares por ser diferente de ti, conhece através das minhas palavras tudo pelo que passei.
- Nasci a 14.Agosto, à quinze anos atrás, numa maternidade, onde vim ao mundo com o típico brilho no olhar como todas as outras crianças, tinha o meu pai e a minha mãe a meu lado, sentia-me uma pessoa feliz, mesmo ainda não sabendo que o era, sentia o conforto paternal em meu redor, e para tudo melhorar veio ao mundo um menino, que hoje partilha o mesmo sangue que eu. Aos meus seis anos olhei pela primeira vez o meu irmão, e aí sim já sabia que era feliz. Entrei para a escola com um sorriso nos lábios, mas conforme o tempo passava, via a minha vida a desmorenar, chegava a casa e via a minha mãe a levar tareia atrás de tareia, mas ao mesmo sentia que o meu pai se orgulhava do que fazia, o meu coração ficou confuso, a minha cabeça barralhada, pois tudo o que aprendi, foi exactamente aquilo.
Todas as manhãs, no dia seguinte a toda aquela tortura, olhava nos olhos da minha mãe e para além das marcas das garras ferrozes do meu pai via o seu olhar caído {morto}, sentia a minha mãe distante de mim, mesmo sabendo que não tinha sido eu a provocar aquele sentimento.
Aos meus 8 anos, a minha mãe foi parar ao hospital pela primeira vez, depois de o meu pai lhe ter causado uma emoragia cerebral, era uma inocente menina, que chorava por não ter a mãe bem, mas que ao mesmo tempo ainda não percebia a gravidade da situação, continuava a abraçar o meu pai, como se ele fosse o meu herói, mas o tempo passou, e eu amadureci, aos meus 9 anos, vi a minha mãe a ser expulsa de casa, senti um alivio enorme, a minha mãe explicou-me o porquê daquela partida repentina, eu fingi que percebi, mas continuei sem ligar á situação, talvez por medo, penso eu.
Foi ao sair por aquela porta, que o meu pai nunca mais quis saber de mim, mesmo quando estava na mesma habitação que eu sentia-o distante, mas era meu pai, amava-o fosse qual fosse a sua maneira de ser, tempos após tempos deixou de existir visitas, telefonemas, olhares cruzados com os dele, tudo, deixou de existir TUDO, mas eu sempre me fiz de forte, a dizer que o odiava e que ele para mim não era nada, a não ser quem me fez vir ao mundo, mas nunca foi realmente assim, mudei de casa, vim para uma mais humilde meses após o meu pai nos ter abandonado por vontade própria, a minha mãe ficou desempregada, e era a minha avó que nos sustentava.
Mas a minha mãe formo-se e mentalizou-se de uma nova vida, e deu-nos sempre tudo o que tinha, passou por tudo o que eu nunca passei, hoje vivemos através do ordenado que recebe, que é pouco mais que o dinheiro da renda, se ela encara a vida com um sorriso ? por vezes sim , por vezes não , mas quem a pode julgar ? passou tudo o que passou não por vontade própria mas porque teve de o ser.
Não vejo o meu pai há 4 anos, por vezes o dinheiro falta, e por vezes ninguém é feliz.
Em termos de individualidade, sempre fui uma pessoa correcta, hoje menos que dantes, mas é assim, sou o que sou com o que aprendi através de acções, não me vitimiso nem me vitimisei é escusado, não muda nada.
Fumo, bebo, desgraço a minha vida a cada segundo que passa, mas mesmo assim a força para mudar ainda não é suficiente, porquê? ainda hoje desconheço a razão.
Tenho problemas de saúde como maior parte da população, mas encaro a morte como a unica certeza que tenho desde o primeiro dia em que conheci tudo isto.
Ainda hoje tenho sonhos com tudo o que vi, ouvi e senti, mas acordo e ninguém sabe, pois para mim é mais importante dar valor a minha mãe por um segundo, do que pensar no monstro que nos destrui durante horas.
Não vou perder mais tempo a falar do passado, pois o presente tem tantos obstaculos como a analépse.
Maior parte das pessoas que me conhecem pensam que tenho dinheiro, que tenho uma vida fantástica, mas sempre que entro em casa, a minha cabeça fica vazia e torno-me numa pessoa igual a ... (ele). ''
~ Não vou contar pormenores, do que aconteceu antigamente, um dia talvez, mas HOJE não sou capaz, não tenho coragem para reavivar a memória para tal.
Tenho medo do que possa acontecer, se falar do que ele me fez.